Ela não tem coragem.

Lá estava ela, em pé no ônibus, olhando pra ele. Como em todos os dias durante aquela semana e aquele mês, e provavelmente um pouco mais, até. A rotina dela mudou para que ela estivesse sempre naquela horário naquele ônibus. A rotina dela mudou para que ela pudesse ter aqueles momentos fugidios. De olhar pra ele. Apenas. Eles nunca se falaram. Eles não se conhecem. Ela não sabe o nome dele. Ele não sabe que ela existe. Ela não conhece os gostos dele. Ele não percebe que ela está sempre lá. Ela tem curiosidade sobre ele. Ele não está nada curioso sobre ela. Ela o vê. Ele não a vê. Ela poderia sentar ao lado dele ou ficar em pé ao lado dele no ônibus lotado, mas não tem a coragem necessária. Ele sorri para as pessoas que passam e conversa com outras que reconhece do dia a dia, mas não sorri nem conversa com ela. Ela queria sorrir pra ele e conversar com ele, mas ao mero sinal dos olhos dele na direção dela, ela afasta o olhar. E só depois que tem certeza que ele não vai voltar a olhar pra ela — ele não se detém nela –, ela volta a olhar pra ele. Ela um dia já esbarrou nele por acaso. Sentiu a pele dele pegando fogo. Não soube o que fazer no momento, só ficou olhando para os próprios pés. Esperava que ele a tocasse de repente, sem motivo, por apenas um milésimo de segundo, também. Mas ele não pareceu nem ter notado a presença dela ao seu lado. Ela nunca mais esteve tão próxima dele a ponto de poder tocá-lo, depois disso. Mas a vontade está sempre lá. Ela já teve vontade de perguntar o nome dele — para ele mesmo e para as pessoas que o conhecem. Ela já teve vontade de perguntar sobre a rotina dele, o que ele faz no tempo livre, o que ele gosta de fazer e o que ele já sonhou. O que ele come, onde ele mora, do que ele sente falta e o que o faz sorrir. Nada nunca saiu da boca dela. Todo dia ela pensa em perguntar qualquer coisa, por menor que seja, pra ele, mas nunca pergunta. Nunca consegue. Nunca corre o risco. Ele não vai deixar de respondê-la. Talvez ache estranho, talvez esteja acostumado. Ela não sabe se ele é uma pessoa falante ou de poucas palavras. Mas ele não parece mal educado a ponto de não responder. Só que ela não sabe se conseguiria lidar com a indiferença da resposta dele. Não saberia lidar com a falta de vontade de falar com ela. Com a estranheza em suas feições ao responder perguntas tão aleatórias de uma pessoa tão aleatória. Ela não sabe se conseguiria lidar com a falta de interesse dele por ela. Se ele não respondesse à altura do que ela imagina para ele, ela não saberia lidar com a diferença do real e do imaginário. E com isso ela não consegue lidar.

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