Resenha de convidado: Mulheres de Cinzas, Mia Couto

A trilogia As Areias do Imperador, escrita pelo autor moçambicano Mia Couto, não poderia ter começado melhor. Mulheres de Cinzas, nome do primeiro livro, é poético, histórico e vivo. Esta última característica foi a que mais reinou durante a leitura. Senti que não lia o livro, mas sim que ele se mostrava na minha frente, vivo, caminhando sua história de forma fluida, sem erros, sem incômodos, sem medo.

E isso é uma característica das obras de Mia Couto, não há dúvidas. O livro reveza a narração entre Imani e o Sargento Germano (já podemos entender que haverá duas visões diferentes: “colonizado” e “colonizador” – ou “proprietário” e “invasor”? Fica a critério do leitor…) e fala sobre a batalha do império português no final do século XIX contra o imperador Ngungunyane, que atrapalhava o avanço do poder de Portugal na África. Os elementos reais se mesclam tão bem à fantasia que eu acabei vendo Moçambique como um lugar mágico. Porém, fica claro que Mia Couto quer fazer uma crítica à colonização europeia e não tem fantasia alguma que torne os resultados desse processo que destruiu culturas e seres humanos em algo bonito ou agradável de se falar. Imani é uma personagem forte: mulher, negra e apaixonada por um homem branco que representa o fim de sua cultura. Germano, por outro lado, é fraco.

Perdido em uma cultura extremamente diferente da sua, acredita que está ficando louco. Por vezes, percebe-se que o desejo que ele tem por Imani é mais sexual que amoroso, o que talvez seja uma forma de Mia Couto expor o machismo (os leitores de Mia sabem que ele tem um grande respeito pelo feminismo e suas obras são recheadas de mulheres fortes que trazem à tona o machismo enraizado na cultura mundial). A linguagem é poética e permite que a história se desenvolva sem enroscos. Com críticas sutis e eficazes. Personagens bem desenvolvidas e trama interessante que promete ainda mais, pois sabemos que faltam dois livros para completar a série. Estou ansioso para saber o que vai acontecer e recomendo que prestigiem essa obra incrível de um irmão da língua portuguesa.

Igor Marcondes, 25 anos, formado em Letras pela USP, morou dois anos em Santiago do Chile, onde estudou na PUC e, atualmente, mora em São Paulo. Escreve poesia quando o capital deixa, narrativas quando o tempo coopera e resenhas quando os amigos pedem. Trabalha com revisão de texto e pretende seguir a carreira literária. Escreve no Autorias.

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