Sobre literatura contemporânea e literatura fantástica

Semana passada falei sobre preconceito literário e essa semana fiquei matutando sobre um tipo específico desse preconceito. É aquela conversa que começa com a terrível pergunta “por que você só lê livros de fantasia (ou pior, “esses livros de criança”)?” e no meio tem algo tipo “você devia ler mais livros reais, que ajudem você no cotidiano”.

Quando alguém me fala isso eu normalmente nem tento argumentar, e quando realmente preciso falar algo eu digo apenas “se eu quiser ler atualidades eu leio o jornal”. O que é uma generalização sem tamanho, mas é pra evitar a fadiga.

A questão é: livros, como um todo, nos ensinam muitas coisas. Todo tipo de coisa. A ficção contemporânea consegue trazer vários e vários aspectos de uma ou várias realidades, sem precisar de elementos sobrenaturais pra isso. Mas a fantasia consegue fazer a mesma coisa com os tais elementos sobrenaturais. Toda a magia, poderes, criaturas e mundos fantásticos adicionam algo que não existe na nossa realidade, mas acabam lidando com os problemas mundanos de sempre.

Na minha experiência como leitora e ex-livreira, a minha teoria é que as pessoas que não leem fantasia não o fazem por medo do desconhecido. Sério. Foram raras as pessoas que, quando eu perguntava “você lê fantasia?”, dizia que não por motivos válidos, tipo “já li algum livro e não consegui me identificar com os problemas do personagem sobrenatural” ou algo assim. A resposta das pessoas normalmente é “ah, não gosto dessa coisa de monstros” ou, ainda, “acho feio”.

O que eu acho mais intrigante em toda essa conversa de “nunca li mas não gosto” é que muitos livros de literatura fantástica são baseados na jornada do heroi, que é, basicamente, todos as situações e contratempos que uma “pessoa normal” passa pra conseguir realizar seu objetivo e se transformar num “heroi”. E isso é tão, tão humano. É a história de como se superar e superar os problemas do dia a dia. Como não se identificar com isso?

Também cheguei à conclusão de que o “desgosto” pela fantasia é por causa da falta de imaginação. Acho que as pessoas não conseguem imaginar seus problemas como inimigos e não conseguem se imaginar como seres com habilidades superiores. Pior, não conseguem imaginar outros mundos totalmente diferentes do seu. Outros mundos com pessoas e criaturas (ainda mais) diferentes e regras de convivência e socialização (às vezes nem tão) diferentes. Mas que lutam, basicamente, pelas mesmas coisas que nós.

E tem outra coisa: muita, mas muita coisa da ficção fantasiosa vem da vida real. Em graus maiores ou menores, mas a História e a Ciência como um todo contribui bastante para todas as guerras, o desenvolvimento tecnológico das criaturas sobrenaturais, o futuro e o passado de distopias… E muitas coisas também são produto dos nossos piores e melhores sentimentos e ações. Vale pensar nisso ao escolher sua próxima leitura!

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1 Comentário em Sobre literatura contemporânea e literatura fantástica

  1. Concordo com você, e ainda acrescento que na nossa cultura pouco eh difundido o incentivo a leitura. Seja ela contemporânea, de época, fantasia ou não. O fato é que alunos não são estumulados desde crianças a praticar o prazer da leitura. As poucas opções que recebem são as obrigações escolares. Se os pais, familiares ou amigos não importam-se com a cultura em geral, provavelmente, não influenciará as crianças para tal. É por isso q crescemos sem muito desenvolvimento cultural. Tão pouco o governo não tem interesse em pessoas q reclamem seus direitos, preferem pessoas ignorantes e fáceis de manipular. É como no livro Fahrenheit 451, que faz uma alusão perfeita aos dias de hj. Onde a tv está mais chamativa que as páginas de um livro. Que venha uma reforma educacional urgente, já que em casa só existe, na maioria dos casos, a tv ligada. 😉

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