Sobre livros juvenis e leitores preconceituosos

A discussão já é antiga, assim como o preconceito. E, como todo preconceito, não se justifica, principalmente se olharmos os números do mercado nos últimos anos. Mas várias pessoas ainda olham torto para os livros juvenis.

Eu posso falar com total conhecimento de causa: dos quase mil livros que tenho nas minhas estantes, 90% ou até mais é juvenil. E tem gente que chega aqui na minha casa, olha para os meus livros e tem a coragem de virar pra mim e dizer “e aí, tem algum livro bom ou é tudo livro de criança?”.

Eu não entendo — e, sinceramente, acho que prefiro não entender — as pessoas que acham problemas na literatura juvenil. Digo, as pessoas que têm problemas por causa de seus julgamentos e pré-conceitos. Por que não pensar que todo e qualquer livro é válido, dependendo apenas de seu humor do dia e do seu estado de espírito? Essas pessoas não falam que livros juvenis são ruins porque leram e acharam a narrativa ruim, ou acharam que os personagens não são cativantes o bastante. A maioria delas não lê e diz que o livro é ruim porque…………. por que mesmo? Por que é um livro onde o público-alvo são jovens/adolescentes/crianças? Desculpa, mas seu argumento não é válido. Existem livros pra todos os gostos, idades, preocupações e desalentos. Não é justo você dizer que um livro é ruim porque você não faz parte do público-alvo dele (!!). Ele apenas não foi feito pra você.

Aí tem aquele tipo de pessoa que tenta (inutilmente) mascarar seu preconceito dizendo “é ótimo que você leia livros juvenis, mas depois de uma certa idade você precisa ler livros melhores”. Eu mal consigo respirar depois de “certa idade” + “livros melhores”. Essas pessoas normalmente são aquelas que gostam de ler livros sobre finanças e economia. É claro que eu conheço várias pessoas que já me disseram isso e… uma vez (apenas uma) eu tentei argumentar de volta dizendo “mas eu não gosto de economia, não é o tipo de livro que eu gostaria de ler”. E a pessoa disse, com cara e voz de quem estava ensinando algo muito importante a uma pessoa muito burra: “mas, querida, não é questão de gostar, você precisa ler de qualquer jeito”.

Parei de discutir depois disso, claro. Mas explicando agora: não, eu não preciso ler algo que eu não goste — a não ser que seja algo relativo a trabalho/faculdade, e mesmo assim eu ainda tenho algumas ressalvas –, e, definitivamente, eu (você, todos nós) não preciso ler algo pra provar que sou inteligente ou algo do tipo para alguém. Eu penso que os seres humanos são perfeitos em suas imperfeições justamente porque existe um grupo de pessoas que gosta de um grupo de coisas. As coisas existem porque existem pessoas que gostam delas. Eu não preciso me aprofundar num assunto que eu não gosto sem nenhum motivo maior, porque existem pessoas que se aprofundam nesse assunto porque gostam dele. Não estou dizendo que todos devem se fechar em suas caixas de gostos, lógico. Estou dizendo que todos têm o direito de não querer e não precisar ler mais sobre certo assunto que não lhe interessa.

Com isso, concluo algo que deveria ser de conhecimento público: não existe literatura superior ou inferior. Existem livros bons e livros ruins? Existem, tecnicamente falando. Mas existe livro tecnicamente ruim que é bom para certas pessoas em certos momentos. E também existe livro tecnicamente bom que é ruim para certas pessoas em certos momentos. Não leia um tipo de livro só pra dizer que ele é ruim, principalmente se você já leu outros livros do mesmo estilo e não gostou deles. Principalmente, não diga que um livro é ruim e não argumente o porquê de sua opinião.

O fato de você ter um gosto literário não quer dizer que tudo o que você gosta é bom e tudo o que você não gosta é ruim.

No TweetBacks yet. (Be the first to Tweet this post)

3 Comentários em Sobre livros juvenis e leitores preconceituosos

  1. Meu blog é sobre ficção científica e já tive alguns reclamões dando piti porque resenhei Jogos Vorazes, Divergente entre outros juvenis. Mas ao mesmo tempo em que leio um Asimov eu leio um Suzanne Collins. Livro bom é livro bom, não interessa a faixa etária.

    Costumo dizer que não existem livros chatos, existem autores chatos. E se os autores de juvenis estão conseguindo arrebanhar tanta gente, estão fazendo a garotada ler e criar o hábito de leitura… então por que raios esse povo fica enchendo o saco??

    Tive que ouvir de uma senhora que meu mouse florido é “coisa de criança e quando é que eu ia crescer”. Lamento, minha senhora, meu mouse, meu computador, meus livros, minhas regras. A gente tem que ler o que nos agrada. E muito autor tido como “mais adulto” é chato pra kct, não agrega em nada e só faz mais do mesmo. #prontofalei

    Os livros juvenis, especialmente as distopias e as space operas que estão saindo como YA estão trazendo reflexões, personagens femininas como protagonistas e fazendo críticas ao mundo. Não é justamente isso que a gente quer que as pessoas – em especial adolescentes – façam?
    Sybylla recently posted..Resenha: Horror em Amityville, de Jay Anson

    [Responder]

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*


CommentLuv badge