Resenha: Fifty Shades of Grey, E.L. James

 

Anastasia Steele tem 21/22 anos, estuda literatura, é ingênua, virgem, se diz desastrada e tem inveja da melhor amiga e companheira de quarto porque ela “é bonita até resfriada”. Christian Grey tem 27 anos, é um bem sucedido empresário, bonito, inteligente, controlador e cheio de segredos. Os dois se conhecem por meio de uma entrevista que Anastasia faz com Christian, e de imediato eles se sentem atraídos um pelo outro. Ao começarem uma relação, Anastasia é apresentada a um dos segredos de Christian: sua preferência pelo sadomasoquismo.

Divisor de opiniões, Fifty Shades of Grey – Cinquenta Tons de Cinza, na versão brasileira que será lançada pela Intrínseca – começou como uma fanfic de Crepúsculo e se tornou um dos maiores sucessos literários do momento. A única razão que vejo pra isso é o tremendo marketing que veio de Crepúsculo. E, provavelmente, o grande estigma de curiosidade sobre sexo. Não tenho nada contra Crepúsculo e muito menos contra sexo; o grande problema desse livro é que a autora não conseguiu aprimorar sua escrita de fanfic para o nível de romance e também não conseguiu se decidir entre um público: nem serve como livro young adult nem serve como livro adulto.

Anastasia é a personagem mais irritantemente ingênua que eu já conheci. E nonsense ingênua, ainda mais. Primeiro, ela é uma garota ingenuamente virgem aos 21 anos de idade. Ela não é apenas virgem, ela é ingênua sobre isso. Ela nunca se masturbou. Ela só teve um namorado (ou dois, não lembro). Ela não tem nenhuma experiência sexual de qualquer tipo. Segundo, ela é uma garota ingenuamente virgem que é apresentada ao sadomasoquismo e se submete a isso só por causa do Christian. Ok, rola curiosidade, ela até tenta ficar confusa, mas a única confusão que ela tem realmente é que ela se apaixona por ele em menos de uma semana e aceita tudo dele por causa disso, mas não consegue entender que, bem, não é assim que as coisas acontecem. Ela fala e age ingenua e infantilmente todas as vezes, e o que ela pensa é ainda pior. Ela não se vê submissa (mas entra com tudo numa relação sadomasoquista), não consegue lidar realmente com a personalidade e as preferências de Christian e tem uma inner goddess (algo como deusa interna), uma “consciência esperta” e extremamente chata. Todo o “drama” se resume às altas e infantis expectativas dela.

Como a narrativa é da Anastasia (e sua chata inner goddess), não dá pra realmente conhecer o Christian. Principalmente porque a maioria da perspectiva da Anastasia sobre ele é puramente física. Mas também porque ele faz o tipo misterioso, cheio de segredos. O problema é que ele é bem exagerado nesse aspecto. Assim como não dá pra saber porque diabos ele se interessa pela Anastasia, também não dá pra perceber porque ela se interessa por ele (além do fato de ele ser incrivelmente lindo). São pouquíssimas as vezes em que algo mais sobre ele aparece, e a visão infantilizada da Anastasia não ajuda. Algumas partes sobre ele fazem o livro ser quase bom (não chega a tanto). São pequenos vislumbres do quanto a história seria melhor se fosse um livro mais adulto, mais desenvolvido.

As partes de sexo não são exatamente boas, mas não são ruins. Acho que o que mais influencia (negativamente) nelas é o fato de ser uma relação sadomasoquista entre um cara superexperiente e uma garota que nem conhece o próprio corpo. Isso também influencia o direcionamento do livro: está sendo vendido como literatura erótica, mas quantas adolescentes – virgens e ingênuas como a Anastasia – leram e lerão o livro pensando “ah, era uma fanfic de Crepúsculo, deve ser lindo!” e acharam e acharão o relacionamento e o comportamento dos personagens algo normal? Não digo isso por causa do sadomasoquismo (já que isso vai das escolhas de cada um), mas sim por causa do envolvimento “romântico” entre eles, do fato da Anastasia se submeter a ele de forma tão profunda e rápida, e ele não apresentar nenhum motivo concreto pra isso, a não ser o quê?, atração física, personalidade enigmática (isso atrai alguém?), arrogância extrema (oi?).

Livro: Cinquenta Tons de Cinza

Série: Fifty Shades #1

Autora: E.L. James

Lançamento: 2012 (Brasil)

Editora: Intrínseca

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10 Comentários em Resenha: Fifty Shades of Grey, E.L. James

  1. Não sabia que o esse livro – tão aclamando por artistas e cotado para se tornar filme era uma fanfic de Crepúsculo (devo parabenizar a autora que conseguiu um grande feito – mesmo que o livro não seja bom) transformar uma fanfic em um livro com ‘sucesso’ não é para qualquer um não, vejo muitas autoras de talento nesse meio que não conseguem tal feito. Leio e escrevo fanfic’s (já vi algumas bem pesadas mesmo – tais quais só tive coragem de ler o começo de tão forte que era o conteúdo). A resenha não me animou muito, mais ainda pretendo lê-lo para tirar a limpo. kaoskaos mesmo assim sinto que não vou gostar muito da protagonista, esse ‘inner’ dela me desanimou bastante ahahha. Gostei da resenha, beijos!

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  2. Mari salvadora!
    Estava super interessada por esse livro essa capa tinha me deixado intrigada pq nao diz nada, ai vi q era um super lançamento e fiquei muito afim, parece q já tem a venda na saraiva, ontem vi e quase comprei, por um triz nao compro!
    E seria uma amarga decepção!
    Não sabia q era uma fanfic de Crepúsculo (livro qual não gosto), e muito menos que o conteudo era sadô (não gosto de livro com sexo explicito).
    gostei muito da resenha, acho q uma resenha sincera vale muito! E meu cá entre nós q gostamos de anime e mangá, essa ingenuidade irritante dessa personagem bem lembra aqueles hentais xexelentos que adolescentes japoneses assistem não lembra não?? (vide q tbm detesto hentai, mas conheço o genero)

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    Mariana Paixão
    Twitter: marypaixao

    Sheila, nesse caso, que bom que não comprou, né? =)
    Quanto à relação entre os mangás e animes japoneses, eu não tinha pensado nisso até agora, mas a GRANDE diferença é que no caso das japonesas, essa ingenuidade é cultural. O sexo lá é quase um tabu, elas não têm a liberdade sexual que nós aqui no ocidente temos. Qualquer tipo de contato para as japonesas é tido como intimidade, e isso não é muito comum. Isso não acontece com as americanas, é muito incomum essa ingenuidade!

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    Sheila Comar
    Twitter: MellBooks

    Verdade lá no Japão as pessoas são imensamente mais recatadas! Agora nos EUA a gente já viu besteirois americanos o suficiente p/ saber como eles lidam com esse assunto lá.
    Anyway, riscadinho da lista rs
    Sheila Comar recently posted..Palavreando com o leitor – O livro que marcou minha vida!

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  3. UAU! Essa foi uma das resenhas mais sóbrias que li sobre o livro. Muito boa MESMO!!
    Eu já estava com o pé atrás por ser um derivado de Crepúsculo…e confesso que assim que ouvi fanfic, desisti completamente.

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  4. Oiii Mary, q ótima resenhaaa!!! Ameei. Apesar de ser fanática por Twilight (como vc sabe hauhauha) nunca me interessei em ler este livro, achei q ela queria embarcar no sucesso dos outros e tals, e sabia desse lance de sadomasoquismo o q pra mim passa uma impressão mto erotizada e ñ romântica (q é oq eu gosto de ler). Enfim, ñ descarto a possibilidade de lê-lo num futuro ñ mto próximo, mas sua resenha me abriu ainda mais os olhos sobre a obra! Bjoss

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    Mariana Paixão
    Twitter: marypaixao

    Pois é, Rafa, pra mim o livro não tem nada de romântico. O romance dos protagonistas não me convenceu de jeito nenhum, não vi o porquê de eles se apaixonarem.

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  5. Olá, conheci seu blog buscando mais infos desse livro que pra mim era um mistério… Bom ler uma resenha de qualidade e honesta. Adorei e parabéns. Eu já não estava muito interessada em lê-lo, agora é que não o lerei msm.
    Beijos e Sucesso!
    Lilo
    Redenção
    Lilo recently posted..Notinhas

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  6. Bom como você mesma disse, no que a autora pecou (eu ainda não li, mas creio que é isso) foi na não definição do público. Até gosto de romances hots, mas pelo jeito que você falou, o ‘romance’ em si fica meio perdido.
    Sobre em ser em 1ª pessoa sempre fico com o pé atrás, se não definir muito bem a personalidade do personagem fica tudo muito confuso.
    Debyh recently posted..Você é bonito?

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  7. Poxa, Mari, que bom que você falou da parte do sadomasoquismo! Eu sabia que a temática desse livro era basicamente sexo, mas ainda esperava algo além disso – e parece que não é o caso. Não quero bancar a santinha nem nada, porém não tenho muito interesse em comprar um livro que se prenda a uma única temática, no geral, e que fale de BDSM como se ocorresse tão fácil e normalmente (no sentido de com todo mundo). Deus, O QUÊ as adolescentes – que COM CERTEZA lerão a obra – irão pensar?

    Abraços,

    Fátima Menezes – @fatimamd

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  8. Até agora só li duas resenhas desse livro, contando com a tua. A primeira falava bem do livro e tal mas eu super gostei da tua, além de ser super sincera você cita os aspectos fracos do livro e por que não ter gostado muito.
    Eu já estava bem “talvez um dia leio” e continuarei assim, nem pretendo comprar mas caso apareça uma oportunidade de ler…

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  9. Para quem gostou (ou até mesmo para quem não curtiu) do “50” existe um livro nacional que atrevo dizer ser bem mais legal: “REDES SENSUAIS”. http://WWW.FACEBOOK.COM/REDESSENSUAIS. – Voces acharão “Redes” muito mais excitante (e plausível) que o “50”. A história reflete isso que acontece todos os dias, isto é, pessoas se encontrando no real e no virtual através da internet. Apesar da falta de marketing, o livro compensa pelo jeitinho mais “nosso” sem entretanto cair no lugar-comum ou abaixar o nível apesar do alto conteúdo erótico. Gostei e recomendo efusivamente!

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  10. Oi! sou amante dos livros como vc, e estou lendo a série fenômeno Cinquenta Tons na minha modesta opinião ela nada mais é que uma forma apimentada de conto de fadas, onde o herói simplesmente age da cintura pra baixo … rsrs! mas acho que a obra revela uma compulsão por controle da parte do Sr. Grey e de uma semi submissão pela Srta. Steele, estou no 2º livro que é bem mais interessante que o 1º, pelo fato de que os personagens ficam melhor delineados e com uma escrita bem melhor, algumas cenas emocionam coo a que o Sr. Grey admite que ama a heroina. Quanto ao seu fim da vitrine, Nabokov é legal, mas o Marquês de Sade é pra estômagos fortes, digo até d+! pois não consegui nem ler Os 120 dias de Salô, e nem assistir o filme hômonimo de Pier Paolo Passolini, pois é extremo e olha que não sou púdiico rsrs! No mais Justine é uma boa introdução ao Marquês.

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