Conversando com… Pauline Alphen + Resultado do sorteio de Os Gêmeos!

Não sei se vocês viram, mas mês passado comecei uma nova coluna de entrevistas: Conversando com… Também tem uma coluna de (mini) entrevistas, mas essa coluna é pra uma entrevista mais longa e detalhada.  Além de ter minhas próprias perguntas, que eu irei juntar toda a minha criatividade pra fazer, também abrirei espaço para as perguntas de vocês, leitores. E, participando da coluna, você pode ganhar prêmios!

Então, mês passado foi o mês de vocês fazerem perguntas para a Pauline Alphen, autora de Os Gêmeos. E aqui está o resultado! Lembrando: a pergunta que a autora mais gostou de responder estará marcada em vermelho e a pessoa que fez a pergunta ganhará um exemplar de Os Gêmeos! YAY!

  • O que você pensou e o que você fez quando pegou o primeiro livro de sua autoria pela primeira vez?

Foi “A Odalisca e o Elefante”, 1998, Companhia das Letras, escrito em português. Saiu no Brasil quando eu já morava na França. Um dia, recebi um envelope. Abri sem saber o que era e vi um livrinho vermelho com uma capa linda do Ângelo Venosa (uma homenagem a Matisse) escorregar do envelope. Na época, não tinha internet, a editora não mandava PDF da capa. Demorei um pouco para realizar. Fiquei olhando para o livro sem entender direito o que era aquilo. Surpresa. Emoção. O mais estranho era ver meu nome na capa. Alguns livros depois, continuo achando isso estranho, aliás. Tenho uma relação estranha com o objeto livro quando fui eu que escrevi. Coloco na estante mas não fico olhando muito. Pudor. Mas nesse dia, quando segurei o livro que escorregava do envelope, meu coração deu um pulo de alegria.

  • Entre todas as personagens que você já criou, qual é sua favorita? Por quê?

Vai ser frustrante a resposta mas juro que não posso escolher um personagem. De todos os personagens de Salicanda, não há um de que goste mais do que os outros. Claris e Jad são muito próximos. Blaise e Chandra me fazem rir. A relação de Maya e Bahir me comove. Adoro. Ugh. Tenho um carinho especial pelo Merlim que aparece pouco no primeiro volume, porque é pequenino. E pelo Eben, por causa de sua melancolia, da saudade incurável que sente da mulher. E por outra razão que não posso contar porque Mariana vai dizer que é spoiler…

  • Você acha que sua escrita algum dia poderá afetar sua realidade?

Meu trabalho é minha realidade. Minha realidade com as “Crônicas de Salicanda” é passar sete horas por dia vivendo num universo que não existe, convivendo com pessoas que não existem… como se existissem! Bom, confesso que há dias e fases do trabalho em que a passagem de um universo para o outro é delicada. Quando saio diretamente da mesa de trabalho para ir buscar minha filha na escola que fica a cinco minutos de casa, posso parecer meio fora do ar… Ok, passo grande parte de minha vida fora do ar, percorrendo outros ares. Essa é minha realidade.

  • Escrever um livro e colocar tudo o que você sente no papel pode parecer fácil, mas não é. Qual emoção mais tomou conta de você quando viu que tudo que você colocou na sua obra agora está concluído e que pessoas ao redor do mundo poderão ler suas palavras?

Como disse antes, eu tenho uma relação meio estranha com o trabalho quando está pronto, quando virou livro. Sou totalmente obcecada enquanto escrevo, não consigo desligar da história, dos personagens. Acordo, como e vou dormir pensando nela. E sonho também, sonho muito. Tudo que vejo, ouço, leio e vivo vem alimentar o que escrevo. Isso dura o tempo da escritura. Mas uma vez que o livro saiu, que eu não posso mais mexer em nada, eu abro mão. Quando o livro é publicado, ele passa a ser do leitor. O negócio passa a ser entre eles, o livro e o leitor. O que vai acontecer? Vão se encontrar? Gostar um do outro? Se divertir? Durar? É um mistério, uma aposta… Quando o leitor embarca na história, quando ele entra no universo, quando ele acredita, isso sim é uma emoção maravilhosa. Quando um leitor escreve ou vem contar o que sentiu lendo o livro, quando o encontro livro/leitor deu certo, tenho a cada vez a sensação de um milagre.

  • Como é sua rotina como escritora na França?

Após levar minha filha menor à escola, volto para a casa, vou para meu escritório que fica no jardim, sento e trabalho. Escrevo das 10h até às 16h30, com micro-pausa para o almoço. As vezes, quando não estou conseguindo resolver alguma coisa, vou dar uma volta com um caderno no bolso. Andar ajuda a pensar. Escrevo no fim de semana e, alguns dias, escrevo à noite também. Nada muito glamouroso, não é? Uma rotina de trabalho, um artesanato como outro. Escrever é um ofício solitário, demorado, silencioso. Na verdade, há uma alternância de dois ritmos: os meses em tête-à-tête com os personagens nesse trabalho silencioso e demorado; e o tempo do contato com os leitores. Na França, há muitas feiras de livros e a possibilidade de encontrar os leitores nas escolas, colégios, bibliotecas. É curioso passar de uma coisa para outra. E é bom. Eu gosto muito de encontrar os leitores.

  • Você trocaria sua vida na França por uma vida de escritora no Brasil?

Passei minha vida passando de um país para o outro, de fato e na cabeça e no coração. Escolher viver na França ou no Brasil, nunca é uma escolha simples. Quando estou num, sinto falta do outro. No entanto, escreveria tanto lá quanto cá e a rotina seria provavelmente muito parecida.

  • Qual a sensação de ter um livro seu publicado no país onde você nasceu?

É ótima!! Meus primeiros livros foram escritos no Brasil e publicados em português. Então, que “CRÔNICAS DE SALICANDA” possa ser lido no Brasil faz todo o sentido para mim. O Brasil é mais do que apenas o lugar onde nasci. É meu país, nele moram meus pais, meus irmãos, minhas sobrinhas, meus amigos, minha adolescência, minha língua. A França também é meu país e minha língua. Não do mesmo jeito mas tanto quanto.

  • Você sempre quis ser escritora ou isso acabou acontecendo naturalmente?

A primeira vez que inventei uma história para a escola, com dez anos, senti e entendi que era isso que eu queria fazer, que era isso que eu era. Que a felicidade, o arrepio, o desafio que eu sentia ao escrever eram o que eu queria para mim. Então escrevi. O tempo todo, sempre que podia, durante muitos anos. Eu não pensava “sou escritora”. Eu escrevia e pronto. Eu era escritora. Era natural, tão necessário quanto respirar. Eu não pensava em ser publicada. Ser publicado é outra coisa, outra parte do processo.

  • O que você costumar ler? Quais são suas influências?

Ler é certamente o que eu mais fiz na vida. Ler na rede ou debaixo de uma árvore, tomando café e comendo chocolate (por isso a invenção do chococafe!) é uma das minhas melhores lembranças de adolescente. E ler escondida debaixo da coberta com uma vela ameaçando incêndio, um delicioso arrepio da infância. Ler e escrever são para mim as duas faces da mesma respiração. Posso falar do que gosto de ler mas Influências são difíceis de discernir. Como sou uma leitora um pouco monomaníaca e obsessiva, quando gosto de um autor, costumo ler todos ou senão vários livros desse autor porque quero ir até o fim do espanto. Fiz assim com Virginia Woolf, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, J.L Borges, Julio Cortazar, Garcia Marquez, José Saramago, Jean Giono, Machado de Assis… Passei também anos de que sinto falta só lendo poesia e um bom tempo tão chocada com Fernando Pessoa que não queria mais escrever nada. De uns anos para cá, leio muita Fantasy e Ficção Científica que oferecem uma liberdade de narração muito particular.

  • A opinião dos leitores em relação aos personagens e aos acontecimentos dos seus livros faria você mudar o rumo da história ou o destino dos personagens?

A minha primeira reação é responder: não. Mas pensando melhor, acho que posso nuançar essa resposta. A trama da história, as personalidades dos personagens, o destino de cada um, os eventos importantes já estão estabelecidos. Acho que se resolvesse, por exemplo, que um personagem morre, não poderia ser influenciada. Porém no decorrer do trabalho, durante essa viagem que é escrever um livro, acontecem coisas imprevistas, surpresas. Por um lado, muitas coisas são planejadas, amarradas, esquematizadas. Por outro, há espaço, tem que haver, para mudanças de trajetória, personagens novos, respirações. Posso contar uma anedota: quando eu estava escrevendo “Os Gêmeos”, lá pelas tantas, dei alguns capítulos para algumas pessoas lerem. Uma das leitoras comentou a cena da feira dos Três Vales, quando Claris e Jad saem pela primeira vez do castelo, disse “Eu adorei um personagem que aparece rapidamente com um falcão no ombro e uma tatuagem azul no rosto.” Ela só disse isso. Esse personagem era apenas uma silhueta que passava na rua de Salicanda. Estava ali para mostrar o espanto dos Gêmeos ao se depararem com pessoas vindas dos vales vizinhos. Esse comentário me chamou a atenção para essa silueta que tomou corpo e acabou dando origem ao personagem de Falcão Branco que é um dos personagens importante das CRÔNICAS e a uma aldeia inteira (Âmbar-Velho). Eu gosto de conversar com os leitores e saber o que sentiram lendo o livro, de que personagem se sentem mais próximos. Gosto de ouvir a leitura que têm dos personagens porque cada leitura é única e legítima. Não importa se nossas opiniões divergem porque o que importa mesmo é que o leitor embarque na viagem da leitura, que entre no universo e se aposse do livro, que o torne seu.

  • Tem algum fato que acontece em “Os Gêmeos” que realmente aconteceu na sua vida ou que te influenciou diretamente para escrevê-lo? Se sim, poderia nos dizer o que foi?

Se estiver pensando em fatos marcantes do volume 1 como ter um irmão gêmeo ou um irmão com problemas cardíacos, morar num castelo , ter perdido a mãe muito cedo, morar num vale isolado etc., a resposta é não. Porém tenho irmãos, gosto de ler em lugares altos, andei a cavalo, faço yoga… A história das Crônicas não é minha história. Mas, sem dúvida, é transpassada de elementos, pessoas, sentimentos, sonhos, revoltas que de alguma forma são meus.

  • Como foi a escolha do título? Ele foi definido antes ou depois do livro ter sido concluído?

O titulo original, em Francês, é “Les Eveilleurs” e o titulo do volume 1 “Salicanda”. “Eveilleurs” é uma palavra intraduzível. A tradução literal seria “Os Despertadores”. Não dava, não é? Quebramos muito a cabeça, Dorothée de Bruchard e eu, tentando achar em português uma palavra tão impactante quanto era em francês. Mas nada dava certo. A editora sugeriu “Crônicas de Salicanda” e eu acho que ficou bom. Em francês, eu escolhi o título da série e do volume no decorrer da escritura do volume 1. Para o volume 2, o titulo foi escolhido antes de escrever o texto porque ele define e resume esse livro. Para o terceiro, foi escolhido no fim do trabalho. E já tenho o titulo do quarto volume que ainda não escrevi ! Como vê: varia…

  • “Os Gêmeos” tem cenas com um quê de comédia, como quando faz referência a diversos personagens do mundo da literatura. Enquanto escreve partes assim, as cômicas em geral, você ri do que está passando para o papel? E quando a uma parte triste, você fica com aquela dorzinha no coração por deixar que aquele personagem passe por tal sofrimento?

Rio e choro, me angustio e me preocupo com os personagens. E, enquanto escrevo, vivo as emoções que eles estão vivendo na história. Uma forma de desdobramento múltiplo de personalidade! Sabe quando eu começo a achar que o que escrevo está ficando bom? Quando ao ler, esqueço que fui eu que escrevi aquilo e me emociono. Quando viro leitora.

  • Em que ponto você percebeu que o relacionamento fraternal dos franceses difere-se do brasileiros e o quanto isso te influenciou/motivou a descrever o relacionamento entre Claris e Jad?

Que pergunta interessante ! Eu nunca me perguntei se os gêmeos eram franceses ou brasileiros. Suponho que de certa forma são… franco-brasileiros! Eu diria que essa questão não motivou o relacionamento de Claris e Jad. No entanto, eu queria falar das relações entre irmãos, essa relação tão particular que é ter um irmão, ser irmão de alguém.

Ufa! Espero que tenham gostado! Achei muito interessante todas as respostas da Pauline! Obrigada pela participação da autora e de quem mandou as perguntas!

E quem ganhou um exemplar de Os Gêmeos foi………… PATRICIA MODESTO! Parabéns!

Mandarei um e-mail avisando do prêmio e ela terá três dias para me responder! Até o fim de semana abro o Conversando com… desse mês, ok? Não esqueçam de acompanhar 😉

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10 Comentários em Conversando com… Pauline Alphen + Resultado do sorteio de Os Gêmeos!

  1. Que lindaa! Ela escolheu minha pergunta!!! *-*
    Estou muito feliz por a Pauline Alphen ter respondido não só a escolhida mas mais outras duas. *-* E claro, também por ter ganhado a oportunidade de ler o livro dela. :)

    Gostei muito de conhecê-la mais e saber do carinho que ela tem para conosco, leitores. Um pouquinho de sua rotina dela na França. De saber como ela se reconheceu como escritora.
    Mas amei saber da emoção que ela sentiu e que ainda sente quando tem um livro da sua autoria em suas mãos e quando ela passa de escritora a leitora de seu próprio livro.

    E… Ela carregava uma vela para debaixo das cobertas para ler? Que loucura. rs

    Aguardando o seu e-mail. Ou prefere que mande um e-mail para você?

    Beijo.

    [Responder]

  2. Boa tarde…

    Adorei a entrevista…
    Só pergunta boa!
    E fiquei curiosíssima pra ler o livro!
    Patrícia, pode colocar na roda esse exemplar ai q vc ganhou…
    Bora compratilhar com os coleguinhas de blog!
    AUhauhuahuahuahuah…

    Beijaum

    [Responder]

  3. Adorei a entrevista x) Achei muito legal essa ideia. A autora parece ser muito fofa, aumentou muito a minha vontade de ler Os Gêmeos agora haha. Ela parece ter um carinho tão especial pelo Brasil

    O único livro que lembro de mostrar uma relação muito forte entre irmão foi Uma Estranha Simetria, que eu gostei DEMAIS. Acho que esse tema me agrada, vou procurar saber mais sobre esse livro.

    beijos
    Julia
    Julia Nevares recently posted..White Cat – Holly Black

    [Responder]

  4. Gostei que a Pauline deu respostas super detalhadas e com vontade! Adorei a possibilidade dos leitores enviarem perguntas, e já mandei a minha para o Conversando com Livia Brazil!

    [Responder]

  5. Nossa!! eu amei a entrevista, aquela parte em que ela diz: “Ler é certamente o que eu mais fiz na vida. Ler na rede ou debaixo de uma árvore, tomando café e comendo chocolate…” eu me identifiquei tanto com isso!

    [Responder]

  6. Fiquei feliz por ela ter respondido algumas perguntas minhas! Adorei a entrevista!
    É bem legal saber um pouco mais sobre a rotina de uma escritora, ainda mais de uma escritora que mora em um país tão diferente do Brasil. Também foi bem legal saber como ela define os títulos dos livros.
    Saber qual a relação da autora com os personagens e a história que criou é algo muito interessante. Realmente gostei muito dessa entrevista!

    [Responder]

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